quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

a globeleza do povo


Por um tempo, ela fazia chapinha. É certo dizer. Reflexo de quem, na infância, não suportava aquela chuquinha que a mãe insistia amarrar no cabelo duro. Puxava testa, puxava juízo, puxava o cocuruto todo. A mãe puxava o saco. “Que linda minha filhinha!”.

A filhinha cresceu. Cresceu copiando os passos e figurinos da Xuxa. Preciso dizer que ela queria ser paquita? Pois bem. Até garota do Fantástico ela imaginava ser. Era mergulhar na água, e lá estava girando e surgindo pro mundo. O da fantasia de ser, claro!

Foi numa dessas brincadeiras de menina querendo ser mulher que a Globeleza do povo pediu pra uma amiga, muy amiga, pintar as unhas e o corpo. “É, pega guache. Dá nada não”. Gostou da sua versão Valéria Valenssa. Sonhava também com um gringo-loiro-alto-olho-verde-cheio-da-grana. Sonhava.

Sambar que é bom ela não sabia. Mas na frente da tevê se requebrava feito lagartixa eletrocutada. Ziriguidum sem rumo no telecoteco. Nas festas não dançava, mas sabia do que era bom. Bom, depois de se enroscar nas próprias pernas e seguir rumo ao chão, foi pra nunca mais tentar. Poxa, tinha que ser diante daquele flerte?! Deu trauma no sarará.

Sarará ela tinha por um tempo. E até gostava. Principalmente quando passeava na Vila e a molecada gritava: “Gostosa! A lá a Globeleza do Povo”. Acenava com tchauzinho de Miss. Estava descoberto o poder da sensualidade inerente às musas carnavalescas seminuas. Aderiu codinome. Fosse dela ou não o título imaginário, se revelava ali certa popularidade.

Mas era a molecada da comunidade gritar “cabelo duroooo”, que ela, se achando a musa do apito, virava a cara e tentava com toda a birra jogar os cabelos; desfavorecida pelo vento, que não movia uma só mecha.

Cresceu vendo o carnaval na tevê. Sacudindo no globo, o centro de ser próprio umbigo. A Valenssa perdeu o posto. A Globeleza do povo não aprendeu a sambar que é bom. Virou dançarina de funk com votos de “consuma-me”. Voltou a fazer chapinha. Afinal, o povo gosta.