Por
um tempo, ela fazia chapinha. É certo dizer. Reflexo de quem, na infância, não
suportava aquela chuquinha que a mãe insistia amarrar no cabelo duro. Puxava
testa, puxava juízo, puxava o cocuruto todo. A mãe puxava o saco. “Que linda
minha filhinha!”.
A
filhinha cresceu. Cresceu copiando os passos e figurinos da Xuxa. Preciso dizer
que ela queria ser paquita? Pois bem. Até garota do Fantástico ela imaginava
ser. Era mergulhar na água, e lá estava girando e surgindo pro mundo. O da fantasia
de ser, claro!
Foi
numa dessas brincadeiras de menina querendo ser mulher que a Globeleza do povo pediu
pra uma amiga, muy amiga, pintar as unhas e o corpo. “É, pega guache. Dá nada
não”. Gostou da sua versão Valéria Valenssa. Sonhava também com um gringo-loiro-alto-olho-verde-cheio-da-grana.
Sonhava.
Sambar
que é bom ela não sabia. Mas na frente da tevê se requebrava feito lagartixa
eletrocutada. Ziriguidum sem rumo no telecoteco. Nas festas não dançava, mas
sabia do que era bom. Bom, depois de se enroscar nas próprias pernas e seguir
rumo ao chão, foi pra nunca mais tentar. Poxa, tinha que ser diante daquele
flerte?! Deu trauma no sarará.
Sarará
ela tinha por um tempo. E até gostava. Principalmente quando passeava na Vila e
a molecada gritava: “Gostosa! A lá a Globeleza do Povo”. Acenava com tchauzinho
de Miss. Estava descoberto o poder da sensualidade inerente às musas
carnavalescas seminuas. Aderiu codinome. Fosse dela ou não o título imaginário,
se revelava ali certa popularidade.
Mas
era a molecada da comunidade gritar “cabelo duroooo”, que ela, se achando a
musa do apito, virava a cara e tentava com toda a birra jogar os cabelos;
desfavorecida pelo vento, que não movia uma só mecha.
Cresceu
vendo o carnaval na tevê. Sacudindo no globo, o centro de ser próprio umbigo. A
Valenssa perdeu o posto. A Globeleza do povo não aprendeu a sambar que é bom. Virou
dançarina de funk com votos de “consuma-me”. Voltou a fazer chapinha. Afinal, o
povo gosta.
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