Está diante do espelho. Veste branco. Ainda
está de pijama. Branco sabe do seu significar. É loucura, sabe?! Vê uma
sombra. Malfeita, coitada! Deve ser a que melhor lhe representa no instante.
Tem vidro nas mãos. Tão frágil quanto está:
se cair, caqueia mil pedaços. Pedaços tão diversos do que vê no reflexo diante
de si. Lá, ainda se é inteira. A alma. Ainda que a visão embaçada não lhe
permita o ver. Não precisa ver, mas sabe que do outro lado existe a face triste
que costuma representar. Ás vezes atua. E como é difícil se olhar nos próprios
olhos.
Gosta de não sentir o próprio peso. Embora
tudo que sinta, neste estado, seja justamente o (a)pesar. E, paradoxalmente, é pesada
e leve ao mesmo tempo que lhe sobra. Sabe exato como tem agido, embora não se
lembre muito bem do que diz.
Gosta do inebrio. É mais corajosa, tato. E
muito mais medrosa, teto. Aquela ideia de diabinho e anjinho aureolados é real:
ambos privam o suposto prazer ou o agir comedidamente. Eis o busílis. É quando
age-se.
O cigarro, então, lhe surge como suporte de
algo que, concretamente, ainda é incapaz de explicar. Ele quase faz refém.
Talvez por isso ser refém é estar atado ao que não planejou. Por outro lado, sente
um tipo de proteção quando ele, o cigarro, está por perto. Inebria-se da
fumaça. E desenha como em nuvens.
Sente dores e odores de dentro e fora. Teme
sentir insatisfações próprias. Tem cá consigo que não tem sido boa. Tem achado
tudo torto. Tudo ocupado demais. Cheio demais. Às vezes acha e quer viver muito.
Ás vezes morre três vezes ao dia. Doses homeopáticas de não ser-se.
Toda vez que se mira de frente, não se vê. Apenas
um borrão há, no ar. Não se enxerga com próprios olhos. Se enxerga! Nenhuma
face seria igual àquela que já carregava em vida, tantas. Às vezes ter idade é
tanto tempo. Às vezes tão pouco.
Quer se embriagar do que não é, do que finge
ser. É farsa. Água viva. Inútil até nos desejos que um dia teve. Tudo se irrita.
E isso não se acaba, meu deus. Deus?! Meu deus, falava tanto em nome de deus. Senhor,
me enxerga?
Naquele reflexo, se esquece. Nada vê. Míope,
carrega a muleta dos próprios olhos. É deficiente. Tem quedas instantâneas.
Alegrias inventadas. É isso... Isso não conta. Embora subtraia um bocado de
suas vontades.
Dança. Acho que nunca verá o reflexo. O próprio refletir. Movimento. Enquanto ele não aparece, dança diante do espelho. De olhos bem fechados. De gerúndios, sabia ruminar a própria essência.
Dança. Acho que nunca verá o reflexo. O próprio refletir. Movimento. Enquanto ele não aparece, dança diante do espelho. De olhos bem fechados.
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