domingo, 8 de janeiro de 2012

se enxerga!

De tempos em tempos, escreve para si. Não se escreve cartas de amor, não se subscrita felicitações de outrora ou decepções no agora. São apenas dedos apontados na face. Os mais petulantes possíveis, claro!

Está diante do espelho. Veste branco. Ainda está de pijama. Branco sabe do seu significar. É loucura, sabe?! Vê uma sombra. Malfeita, coitada! Deve ser a que melhor lhe representa no instante.

Tem vidro nas mãos. Tão frágil quanto está: se cair, caqueia mil pedaços. Pedaços tão diversos do que vê no reflexo diante de si. Lá, ainda se é inteira. A alma. Ainda que a visão embaçada não lhe permita o ver. Não precisa ver, mas sabe que do outro lado existe a face triste que costuma representar. Ás vezes atua. E como é difícil se olhar nos próprios olhos.

Gosta de não sentir o próprio peso. Embora tudo que sinta, neste estado, seja justamente o (a)pesar. E, paradoxalmente, é pesada e leve ao mesmo tempo que lhe sobra. Sabe exato como tem agido, embora não se lembre muito bem do que diz.

Gosta do inebrio. É mais corajosa, tato. E muito mais medrosa, teto. Aquela ideia de diabinho e anjinho aureolados é real: ambos privam o suposto prazer ou o agir comedidamente. Eis o busílis. É quando age-se.

O cigarro, então, lhe surge como suporte de algo que, concretamente, ainda é incapaz de explicar. Ele quase faz refém. Talvez por isso ser refém é estar atado ao que não planejou. Por outro lado, sente um tipo de proteção quando ele, o cigarro, está por perto. Inebria-se da fumaça. E desenha como em nuvens.

Sente dores e odores de dentro e fora. Teme sentir insatisfações próprias. Tem cá consigo que não tem sido boa. Tem achado tudo torto. Tudo ocupado demais. Cheio demais. Às vezes acha e quer viver muito. Ás vezes morre três vezes ao dia. Doses homeopáticas de não ser-se.

Toda vez que se mira de frente, não se vê. Apenas um borrão há, no ar. Não se enxerga com próprios olhos. Se enxerga! Nenhuma face seria igual àquela que já carregava em vida, tantas. Às vezes ter idade é tanto tempo. Às vezes tão pouco.

Quer se embriagar do que não é, do que finge ser. É farsa. Água viva. Inútil até nos desejos que um dia teve. Tudo se irrita. E isso não se acaba, meu deus. Deus?! Meu deus, falava tanto em nome de deus. Senhor, me enxerga?

Naquele reflexo, se esquece. Nada vê. Míope, carrega a muleta dos próprios olhos. É deficiente. Tem quedas instantâneas. Alegrias inventadas. É isso... Isso não conta. Embora subtraia um bocado de suas vontades.

Dança. Acho que nunca verá o reflexo. O próprio refletir. Movimento. Enquanto ele não aparece, dança diante do espelho. De olhos bem fechados. 
De gerúndios, sabia ruminar a própria essência.