domingo, 22 de janeiro de 2012

sabe

sabe, o tempo
passou
não viu a brisa do tempo
soprar

sabe, perdeu
tanto tempo
travando os dentes
sabe defesa?
quando se perdia em lembranças

sabe
assim
rangido?

sabe,
se rangia por dentro,
como portas velhas que ainda insistem aberturas

sabe, percebia
mesmos traços
destroços num rosto alheio

sabe o tempo?
perdera
sem se conhecer

perdendo
tempo
com o que não sabia sentir

sabe, ali
nos resquícios
do que se tornara

era pó
das coisas
sabe...

sabe, lá
qual era o tamanho importante
desse todo sentido
de si

sabe
auto
piedade?

perdera com o tempo

sabe, o tempo?
parou
quando passou o tempo do outro

no tempo do outro não havia
mais nem tempo muito
menos espaço

sabe um vão?

sabe chorar por entre frestas
apagões do tempo que insistia em branco
deixar
  
sabe, o branco era tudo que tocava

sabia encontrar o branco
e quase enxergava,
como o vento
cega dos olhos
brancos

sabe branco,
como o tempo?
perdido e encontrado
leve e docemente inspirado em lissy elle

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

o Aeronauta

tenho tanto tropeçado em Cecília, a Meireles, que vale a íntegra, o pouso, o poema.

UM
Agora podeis tratar-me
Como quiserdes:
Não sou feliz nem sou triste,
Humilde nem orgulhoso
- não sou terrestre

Agora sei que este corpo,
insuficiente, em que assiste
remota fala,
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala.

E seu destino é ir mais longe,
tão longe, enfim, como a exata
alma, por onde
se pode ser livre e isento,
sem atos além do sonho,
dono de nada,

mas sem desejo e sem medo,
e entre os acontecimentos
tão sossegado!
Agora podeis mirar-me
enquanto eu próprio me aguardo,
pois volto e chego,

por muito que surpreendido
com os seus encontros na terra
seja o Aeronauta.

DOIS
Daquele que antes ouvistes,
vede o que volta:
alguém que pisa no mundo
tonto em seu tumulto
de concha morta.

Que rostos incompreensíveis,
Que sepultadas palavras
aqui me esperam?
Não sei dos vossos motivos.

Eu caminhava nas nuvens,
além da terra.
Na minha fluida memória,
meu tempo não sabe de hora.
Apenas sabe
de grandes campos sem teto.

Nos céus tão vastos e abertos,
que é porta ou chave?
Que corredores me apertam?
De que paredes me cerca
vossa hospedagem?

Que existe por estas salas?
Meu nome agora e diverso.
Indeclinável.

TRÊS
Eu vi as altas montanhas
ficarem planas.
E o mar não ter movimento
e as cidades irem sendo
teias de aranha.

Pois mais que houvesse, dos homens,
gritos de amor ou de fome,
não se escutava
nem a expressão nem o grito,
- que tudo fica perdido
quando se passa.

Eu vi meus sonhos antigos
não terem nenhum sentido,
e recordava
tantas nações de cativos
estendendo em seus jazigos
duras garras.

Rios de pranto e de sangue
que pereceram tão grandes,
onde é que estavam?
A asa, que longe se move,
desprende-se, quando sobe,
a humana larva.

QUATRO
Agora chego e estremeço.
E olho e pergunto.
E estranho o aroma da terra,
as cores fortes do mundo
e a face humana.

Compreendo, entre o que me espera,
violências que reconheço
mas que não sinto.
Sem paixões e sem desprezo,
gasto-me todo em lembranças,
neste tumulto.

Porque chego despojado
e humilho-me de ter vindo
como estrangeiro;
- de ser apenas um vulto
que tudo que sabe é de alma,
- ao resto, alheio.

As portas dos meus armários,
que guardam dentro?
Esqueci-me.
De que me servem?
Por mais que tudo examine,
vejo que já não tenho
laços e heranças.

Perdoai-me chegar tão leve,
eu, passageiro
dos céus, límpido vento.

CINCO
Como um pastor apascento
minhas distâncias.
Mas logo me recupero,
para viver entre os vivos,
que estão cativos.

Meu corpo de esquecimento
mede as torres de abundância,
minhas distâncias,
livres e abertas,
dos seus antigos despojos.
Que hei de fazer do que tinha,
ó sombra minha?

Nem feliz nem desgraçado,
pouso por fatalidade,
e ainda respondo,
embora saiba que é longe
para sempre quanto digo
ao mundo antigo.

E tudo que me respondem
fica também noutras eras,
vem de outra idade.
Pastor que contempla ocasos,
eu mesmo sou o meu caminho,
claro e sozinho.

SEIS
Vede por onde passava
a minha sombra,
subida por uma escada
etérea e longa,
no céu desaparecida.

As coisas da minha vida
abandonara:
o que tivera não tinha,
nem fazia falta à minha
sorte mais nada,
nesse amorável deserto.

Onde fui rastro dos ares,
sem roupa ou fome,
sem nação, família, idade,
imerso noutra verdade
tão pura que o homem
não a aceita sem tristeza.

E agora desço e estou perto
e não entendo;
entre máscaras me vejo,
e, entre gritos de desejo,
saudoso penso
nos transparentes lugares

Mas sento-me à vossa mesa,
pesada e presa,
por limite e densidade.

SETE
E assim no vosso convívio
o hóspede novo
sorri como antigo vivo,
ultrapassado, vencido,
o tempo em que foi, na terra
escravo e dono.

E é tão póstumo e tão livre
que cuidadoso
se inclina para quem vive
e no seu mundo invisível
as asas cerra
e pisa o chão com denodo.

E é póstumo e redivivo
e não foi morto
e nunca esteve fugido
nem se evadiu,
nem foi visto
desertar de alguma guerra
ou de algum posto.

Nem ele sabe o motivo
de ser outro,
de ter subido em suspiros,
arrebatado à planície
por onde erra
a tradição do seu corpo.

E só por estar convosco
de amor se mata
submisso e mudo Aeronauta.

OITO 
Ó Linguagem de palavras
Longas e desnecessárias!
Ó tempo lento
de malbaratado vento
nessas desordens amargas
do pensamento

Vou-me pelas altas nuvens
onde os momentos se fundem
numa serena
ausência feliz e plena,
liso campo sem paludes
de febre ou de pena.

Por adeuses, por suspiros,
no território dos mitos,
fica a memória
mirando a forma ilusória
dos precipícios
da humana e mortal história.

E agora podeis tratar-me
como quiserdes - que é tarde,
que a minha vida,
de chegada e de partida,
volta ao rodízio dos ares,
sem despedida.
Por mais que seja querida,
há menos felicidade
na volta, do que na ida.

NOVE
Eu estava livre de imagens
e de mim mesmo.
Alto, longe, tão seguro,
só por solidões suspenso:
Ah, o passageiro absoluto
do eterno tempo!

Deixei de ver meu rosto
diluído pelas viagens.
Há um rosto imenso
que emerge, fúlgido e obscuro,
retrato exposto
sobre as fábulas e os mitos.

Eu já não dizia nada
pois só é puro
o silêncio,
- e exato e claro.
Sempre uma sombra estremece
entre os pensamentos ditos.
E eu não falava.

No rio das nebulosas,
num vertiginoso leito,
tudo se esquece.
Nem o amor no nosso peito
é mais luminosa espada.
Que sois, coisas luminosas,
da terra ou do sonho humano,
nesses caminhos
de divino desengano?

DEZ
Ai daquele que é chegado
e que não chega...
Por mais que aqui me equilibre,
e vos faça companhia,
tudo são queixas
de que me sentis tão livre
como alguém cuja morada
é além do dia.

Provo do vosso alimento,
retomo as humanas vestes.
Já nem suspiro
por esses rumos celestes,
jardim do meu pensamento.
Quase não vivo,
por ficar ao nosso lado.
E acusais-me de ir tão alto!

Ai, que nome têm as coisas!
Que nomes tendes?
São vossas fontes copiosas,
mas outras são minhas sedes.
E assim me vedes
como estranho que se esquece
dos seus parentes
e que em si desaparece.

Do que pedis me lembre,
disso me esqueço.
Mas o que recordo sempre
é o vosso nome profundo.
Esse é que tenho
só, comigo, além do mundo
e reconheço.
E, esse, mal sabeis qual seja...

ONZE
Com desprezo ou com ternura,
podereis tratar-me, agora.
Tudo vos digo:
chorais o que não se chora.
E os olhos guardais esquivos
ao que a vida mais procura,
por eterno compromisso.

Sob o vosso julgamento,
com o meu segredo
tão sem mistério,
paro como um condenado.
E logo volto.
Subo ao meu doce degredo.

Como exígua lançadeira,
vou sendo o que melhor posso
de novo e antigo,
do que é meu e do que é vosso,
dos mortos como dos vivos,
para salvar a vida inteira,
que me tem a seu serviço.

E agora podeis seguir-me,
sem mais tormento,
sem mais perguntas.
Tudo é tão longe e tão firme!
Além da estrela e do vento
passa o Aeronauta
com sua mitologia.

Não clameis por sua sorte!
Tanto é noite quanto é dia.
E vida e morte.

domingo, 8 de janeiro de 2012

se enxerga!

De tempos em tempos, escreve para si. Não se escreve cartas de amor, não se subscrita felicitações de outrora ou decepções no agora. São apenas dedos apontados na face. Os mais petulantes possíveis, claro!

Está diante do espelho. Veste branco. Ainda está de pijama. Branco sabe do seu significar. É loucura, sabe?! Vê uma sombra. Malfeita, coitada! Deve ser a que melhor lhe representa no instante.

Tem vidro nas mãos. Tão frágil quanto está: se cair, caqueia mil pedaços. Pedaços tão diversos do que vê no reflexo diante de si. Lá, ainda se é inteira. A alma. Ainda que a visão embaçada não lhe permita o ver. Não precisa ver, mas sabe que do outro lado existe a face triste que costuma representar. Ás vezes atua. E como é difícil se olhar nos próprios olhos.

Gosta de não sentir o próprio peso. Embora tudo que sinta, neste estado, seja justamente o (a)pesar. E, paradoxalmente, é pesada e leve ao mesmo tempo que lhe sobra. Sabe exato como tem agido, embora não se lembre muito bem do que diz.

Gosta do inebrio. É mais corajosa, tato. E muito mais medrosa, teto. Aquela ideia de diabinho e anjinho aureolados é real: ambos privam o suposto prazer ou o agir comedidamente. Eis o busílis. É quando age-se.

O cigarro, então, lhe surge como suporte de algo que, concretamente, ainda é incapaz de explicar. Ele quase faz refém. Talvez por isso ser refém é estar atado ao que não planejou. Por outro lado, sente um tipo de proteção quando ele, o cigarro, está por perto. Inebria-se da fumaça. E desenha como em nuvens.

Sente dores e odores de dentro e fora. Teme sentir insatisfações próprias. Tem cá consigo que não tem sido boa. Tem achado tudo torto. Tudo ocupado demais. Cheio demais. Às vezes acha e quer viver muito. Ás vezes morre três vezes ao dia. Doses homeopáticas de não ser-se.

Toda vez que se mira de frente, não se vê. Apenas um borrão há, no ar. Não se enxerga com próprios olhos. Se enxerga! Nenhuma face seria igual àquela que já carregava em vida, tantas. Às vezes ter idade é tanto tempo. Às vezes tão pouco.

Quer se embriagar do que não é, do que finge ser. É farsa. Água viva. Inútil até nos desejos que um dia teve. Tudo se irrita. E isso não se acaba, meu deus. Deus?! Meu deus, falava tanto em nome de deus. Senhor, me enxerga?

Naquele reflexo, se esquece. Nada vê. Míope, carrega a muleta dos próprios olhos. É deficiente. Tem quedas instantâneas. Alegrias inventadas. É isso... Isso não conta. Embora subtraia um bocado de suas vontades.

Dança. Acho que nunca verá o reflexo. O próprio refletir. Movimento. Enquanto ele não aparece, dança diante do espelho. De olhos bem fechados. 
De gerúndios, sabia ruminar a própria essência.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

do sms, da morte, das horas, da chuva, de Lir(a)teliê


foto: Liliane Santi / passos: Anybool Crys / caminho: autor desconhecido

9h42 – Um beijo!

9h47 – Te adoro. Isso te deixa feliz?

9h51 – Aqui acontece uma chuva gostosa. Estou sentado numa janela, tomando pingos e escrevendo pra você ficar contente.

9h52 – (por mim)

9h58 – A morte não dói, o que dói é não entendê-la. A gente vai se encontrar, sempre. Lirateliê precisa compor figurinos em todas as vidas.

10h02 – E se na próxima vida eu vir nuvem, montarei um ateliê de chuva para todos os gostos. E a humanidade será mais feliz nas minhas precipitações.

10h04 – Farei chuvas especiais para tu, coloridas, musicais e saborosas.

10h07 – Dançarás na rua com a língua estirada pro céu enquanto te banho. Seria nuvem pra te ver feliz.


cena de escrita: sutilmente inspirado e pós-resultado em "Inquietos".

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

cicatrizes propositais


Desceu naquela estação. Tão sutil de passos que só quem a seguia com o olhar era capaz de prever tamanha sensualidade no lidar com as próprias pernas. Nem grossas nem músculos. Nada mole. Nada bronzeado. Tinha tudo no lugar dalguma rigidez de pele. Sensatez, talvez.

Ela subia. Quase levitou nas rolantes escadas que a transportavam para o alto. Atrás, alguns pescoços se esforçavam para acompanhar aquele movimento acontecido e, o melhor mover, que estava porvir.

Devagar, com leveza, ela ajeitou a bolsa esquerda. Aproveitou o movimento. Ergueu o braço direito envolto à cabeça. E despiu os longos lisos cabelos da nuca. Nuca breve. Se alguém ousasse fungar, haveria ali um perfume doce. De certo.

A blusa era de um tomara-que-caia tal qual a torcida corinthiana vibrando o gol do Imperador. Óquey. Fecha parênteses porque do timão falamos depois. Se houver depois. Tem muita poesia na causa. E certa expectativa até aqui com a nuca despida. Por que não?

Fato é que os minutos rolantes sucederam com admiração da tal cena tatuada. Tatuada a moça estava. Difícil é deduzir o que a levou a grafar por definitivo um desenho de Meg (sem a chupeta, vale dizer!), dos Simpson, com a alusão, e benção, de Jesus Cristo. Era bem pra menos, assim:

Desenho “Meg” sem a chupeta

“Jesus Cristo” logo abaixo


Aí, me pego reparando em tatuagens. Lembro que quando iniciei estágio num banco, tinha em mente me tatuar com algo. O incrível é que esse algo a gente, no fundo, nunca bem sabe o que é. Ou sabe? Enfim. Lembro que na época, me instruíam com um: “Você trabalha em banco. Não pode ter tatoo”. Para minha surpresa, e felicitação, a gerente, Silvia, lembro bem, era talvez a primeira figura exótica, andrógina, que topei na vida, assim, cotidianamente.

Silvia era uma mulher de uns quarenta e dois e mais de dez tatuagens. Arrisco. Trazia no corpo algumas cicatrizes propositais que expressavam certa liberdade em simplesmente ser, ter. Achei aquilo duma petulância admitida e absolutamente agradável aos olhos. Tal qual uma obra de arte ambulante. Tal qual Rick Genest, o muso Gaga Zombie Boy. Para nós, muso sim. É o que chamo de beleza exterior. E vamos combinar que isso de “beleza interior” tá meio démodé. Já deu, né?! E o tal “o que o olhos não vêem, o coração não sente”? Ahã... Tá.

Botões de rosas num caule crescente (sempre adorei esta palavra: “CAULE”) é a única coisa que sei desenhar bem. Acho. Eles vão surgindo assim em um papel rascunho qualquer. Tenho vários espalhados por aí. Desenhados. Ano passado, decidi que eles expressariam a minha versão cicatriz proposital. Nas costas. Como sou magrela e tenho os ossos evidentes, quis tatuar botões de rosas num caule crescente na coluna vertebral. Assim, como se estivessem nascendo dela. A coluna. As vértebras. As rosas.

Não fiz.

Tenho em mim que só Lira seria capaz de traçar tal perfeição. A que anseio em ceder pele para tal arte. Lira carimba magrelas. Um dia explico...

Não cedi. Tenho receio do que é para sempre. Ainda que Lira seja em mim algo além do sempre. E não por pensar a pele murcha e carquilhada. O que seremos senão uma geração de pele com desenhos carquilhados? Carquilha. Outra palavra que degusto. Prefiro, por hora, seguir cá, reparando no tatuar alheio.

E não é que li ainda pouco em ombros desnudos: “Juciara”, no esquerdo. “Lindalva Cleide”, no direito. Pois bem... É o que chamo de cada uma sabe a dor e a delícia de tatuar o que é. Fato. Lindalva deve ser pessoa bem especial para merecer um pedaço de pele, uma cicatriz proposital, uma ferida fechada, querida, aberta.

Pensando bem, não quero nada que me denuncie assim. Meg Jesus Cristo. Jesus Cristo de Meg. Lindalva Neomisia. Lindalva Cleide. Um nome de amor. Kelly Key. Em nome do amor. Zombie Boy. Sou expert em cobrir meu corpo. Tenho amigos que dizem que me visto com capa de botijão. Agradeço Chanel por folgar os espartilhos! Coco, sua linda!

E, diante da máxima “você nunca fica na primeira tatoo. É a primeira de muitas outras”, resto-me cá com cicatrizes propositais que um dia quis para mim. E vos tenho. Em nome de Meg. Amém.