segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sobre dentes de sorrir e morder ou por que exibimos nosso orgulho crespo



"Você não pode sorrir", sentenciou. Foi a primeira vez que me disseram que eu não podia sorrir. Era uma sala pequena, com uma cabine amadora, alguns figurinos e um fotógrafo ligeiro. Ligeiro porque, na sala de espera, outras garotas aguardavam sua vez de sorrir.

Eu tinha 11 anos. Era meu primeiro book fotográfico, desses semiprofissionais que nos anos noventa era febre entre as garotas. Todas tinham um. E eu pelejei muito com meus pais porque também queria o meu. Insisti, por mais que aquilo parecesse superficial e acarretasse um custo adicional nas despesas do mês. Pra mim, era o melhor presente de aniversário. Afinal, também queria sorrir pra foto, queria me exibir na escola, queria me ver bonita. O que eu não sabia é que NÃO podia sorrir. O fotógrafo não disse o motivo, mas deixou subentendido numa desculpa esfarrapada de "Ela usa aparelho, né, mãe!".
Sim, eu usava aparelho e tinha os dentes tramelados; neologismo para tramela. Meu pai, nascido piauiense e crescido trabalhador da roça, tinha uma memória afetiva da tal tramela e explicava pra gente [eu e meu irmão mais velho] que aquilo era um instrumento utilizado para prender os bezerros e desmamá-los quando se pretendia engordar as vacas. Cruel. E, por alguns anos, toda noite eu tinha que dormir com um tipo de aparelho preso aos dentes, mas fora da boca. Era a minha tramela. Eu não podia sorrir.
Semanas depois, chegou o book lindão com suas 30 fotografias. "Lindão" pra minha mãe, que danou a distribuir fotos pra família toda. Um dos meus tios carrega uma delas até hoje na carteira. O mesmo tio que em almoços de domingo soltava a já conhecida piada do "Por que preto só tem dois dentes? / Um é pra abrir cerveja pra branco e o outro pra doer o dia todin". Todos riam ingênuos, deles mesmos. E eu só pensava em não poder sorrir. Gostava de uma ou outra foto, de uma piada ou outra, mas nada ali me agradava. E, claro, não exibi meu book na escola.
Passados os anos e aquele "Você não pode sorrir" me acompanhando também nos afetos, nos crushs que eu não conseguia desenrolar com sucesso, no semblante macambúzio que eu tentava adestrar sorrindo sem dentes toda vez que me sentia diminuída. Até descobrir, sozinha, que no fim das contas eu precisava era de outra tática para me destacar dos demais, pra sorrir doutra maneira.
Tornei-me a melhor da classe, dos verbos, dos sujeitos. Me apeguei a dicionários. E sublinhava de azul as palavras que mais gostava. Copiava incansável nos cadernos de brochura seus significados. Alguns eu inventava, outros aprendia a ressignificar seus nomes. Como o meu próprio, Neomisia sem acento, sempre seguido de risos e chacota a cada pronúncia errada.
O melhor dos meus sorrisos só veio aos 23 e está pendurado, embalsamado numa moldura na sala de casa. É um retrato tirado no dia da minha colação de grau: a primeira com diploma na família. Ali, eu sorria todos os meus 32 dentes corrigidos e brancos. Estou de chapinha nos cabelos soltos. Estou quase branca. Afinal, até ali eu ia me enganando bem: tinha estudo, tinha sorriso bonito, tinha cabelo liso, tinha autoestima. Tinha? Tinha que escolher se na minha primeira entrevista de emprego eu ia de cabelo natural, de cabelo preso, de cabelo solto, de cabelo com creme (muito creme!). Dorme de touca que é pra demorar a voltar ao normal. Dorme cedo que é pra passar a roupa de manhã e chegar bonitinha na entrevista.
Só me sobrava ser minimamente bonitinha. E chegar perto da vaga desejada. E chegar primeiro. E chegar melhor. E chegar... E chegar. "Você vai assim?". Assim como? Assim. Eu quero trabalhar com meu cabelo assim. "Aqui não pode".
"Eu vou assim" demora a acontecer na vida de uma mulher negra. "Eu vou assim" exige segurança, amor próprio, pede atitude, requer tudo que nos ensinaram a não ter, a não ser. "Coloca um lenço ou prende ele assim pra trás". "Deixa preso que ninguém nota". "Mas afina o nariz na maquiagem". "Batom vermelho não". "Não sei como você tem coragem de andar com um cabelo assim". Assim como? É assim que eu sou, que ele é e juntos vamos negociando nossa labuta diária: a de desviar dos olhares, a de ensurdecer palavrões na rua, as tais justificativas para a negação da própria identidade. Aprendemos a nos odiar.
"Eu vou assim" demora a acontecer, mas quando acontece é um caminho sem volta. E acontecer na vida é um exercício diário. É não aceitar os moldes, os padrões eurocêntricos, o quartinho dos fundos, o último lugar na fila. É não ser a escolha que sobra ou a falta de opção. Diário porque exige que você despreze tudo que não soma, tudo que quer te diminuir enquanto indivíduo que se é. Diário porque a estrutura do racismo é dura, concreta a tal ponto que precisamos criar frestas, tentar respirar, aparecer, existir e florescer de algum jeito, como plantas que nascem em lugares inadequados e hostis. Mas nascem!
É hostil ser negro no Brasil. É impróprio, inimigo, contrário, agressivo, provocador. É ser preto demais pra esse lugar todo branco, limpinho. Afinal, é preciso cuidado com o manuseio de todo branco-cor, já que branco não se suja. O racismo nos coloca no lugar da sujeira o tempo todo. E esse lugar nós recusamos, não queremos, não pertencemos. Não somos a mancha. Somos a cor desse lugar cinza que insistem nos aprisionar.
Há lugares de abrigo. Lugares para recarregar forças. Lugares de bênçãos e proteção. E, com o tempo, cada um vai encontrando seu lugar e uma maneira única de se relacionar com ele. Eu encontro abrigo no meu semelhante, no que me representa. E, toda vez em que eu pensar em fraquejar, em desistir, em me esconder de mundo, eu vou buscar abrigo nesse tudo que há no breu, no negro, no preto. Porque, pra mim, preto é a junção de todas as cores, não a ausência delas.
E criar a Marcha do Orgulho Crespo, um movimento que pauta a valorização da estética negra como símbolo de resistência e resgate da identidade e da autoestima, é poder sugerir uma fresta mínima para sermos vistos, pra gente se olhar além do virtual, além da não representatividade na mídia, nas propagandas, nos cargos de poder. É um lugar onde se inspirar no outro é possível e renascer nesse duro cotidiano é necessário: onde flores não nascem, onde vidas negras não importam, onde qualquer característica do povo negro precisa ser dissipada, não aceita, ridicularizada, apagada, morta.
Penso e me felicito quando frestas são abertas. Porque são aberturas para o novo, possibilidades de ressignificação do que está posto como modelo a ser seguido, àquilo que sempre foi e ninguém nunca botou a mão para alterar, para abrir uma nova passagem de luz. Luz é conhecimento.
Certa vez um amigo me disse, com sabedoria: "As árvores crescem pra cima, Neo. Crescem contra a gravidade". Oras, crescem porque vão em direção à luz. Crescem seus galhos em distintas direções como estratégia de sobrevivência. E a nós resta criar estratégias de como sobreviver todos os dias. Estamos a aprender como crescer em diversas direções e possibilidades, a como ocupar os espaços negados, a sorrir e a morder quando preciso. E a valorização da estética também passa por esse lugar, já que este lugar não diz respeito apenas ao Black Power colorido estiloso e tal, é também sobre o jovem negro periférico lido como suspeito pela sociedade e tido como alvo altamente periculoso pela polícia.
Fato é que nossos cabelos crescem pra cima e, aos poucos, a gente vai nutrindo e respeitando nossas raízes - literalmente. E essa, pra mim, é a ressignificação que me apego e fortaleço toda vez que uma mulher negra, um pai, uma criança, um adolescente negro passa por mim e agradece - ainda que com o olhar - a redescoberta de seu orgulho crespo e o desejo de novamente fazer as pazes consigo. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

terror de Estado

 Seu Roberto chora a morte de seu filho de 16 anos, um dos cinco jovens assassinados pela PM do Rio com 111 tiros 

Estado
quando não mata
encarcera


toca a reduzir 
o preto 
toque de recolher
o pobre
tropa a espancar
o periférico


Estado
trancafia as portas
de emergência
some todas as provas
de concreto

abate até o último
dos filhos
sem dó
de dona Maria


um salve aqui pro João
morreu aos 15
e o mano lá da 2?
dois tiros na fuça
dona Júlia nunca mais vi
virou mãe de Maio
e a mina da sua sala?
perde aula pra visitar cadeia


acelera, fi
tão atrasando nosso lado
tamo falando é de vida
as nossas



Poema publicado nas Mães de Maio
sobre a foto: http://www.geledes.org.br/os-cinco-jovens-fuzilados-pela-pm-no-rio-eram-negros-e-isso-nao-e-coincidencia-por-cidinha-da-silva/

‪#‎NãoàRedução ‪#‎15contra16 ‪#‎JovemNegroVivo ‪#‎JuventudeViva ‪#‎Marchacontraogenocidiodopovonegro

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

meus pais têm WhatsApp

Quando meus pais se separaram, há cerca de dez anos, curiosamente, eu e meu irmão mais velho passamos a chamar minha mãe de Tia e de Dona. Nunca falamos sobre isso, mas acho que foi nossa forma encontrada de não lhe acrescentar demasiada responsabilidade, do tipo: Agora você é meu pai-mãe. Não. Ela podia ser quem quisesse: um parça, um ente querido que a nós não devesse em nada; como a tia que fala palavrão nos churrascos de família, que nos crava ali certa presença e memória. E, sem negligenciar respeito, Francisca que é, logo, Tia Fran e/ou Dona Fran passou, assim, a ser popularmente chamada. E, quando digo popularmente, não estou me referindo a uma conta no twitter ou coisa que o valha. Embora ache que, se alguém lançar essa ideia, ela cata. Digo porque, ENFIM, Dona Fran passou a usar WhatsApp. 

Mas não farei aqui uma reprodução de quais poderiam ser as “15 conversas mais engraçadas entre pais e filhos no WhatsApp ou “32 pais que mandam bem demais no WhatsApp. Não. Definitivamente não é o caso dos meus pais – ainda que tenham sabedoria popular para preencher muitos Ks por aí. Um dia explico isso pra eles. Ou não. Ou a coisa vai ficar tão óbvia quanto foi se apaixonarem num bailinho tocando Imagine, do Lennon, no final dos anos 1970, no interior do Piauí.

Não há nada de interessante no que meus pais compartilham no WhatsApp. Não mesmo. Sério! O que há de interessante é a resiliência. É a capacidade que eles têm de se recuperarem das adversidades – nordestinos, retirantes, trabalhadores da roça que foram/são. É o fato de eu ter dado aula pro meu pai à época em que cursava o ensino médio, repassando a ele o meu ensino diário, público. E hoje ele me enviar mensagens com as palavras escritas que aprendeu na vida. Construir suas próprias sentenças, ainda que erradas, ainda que incompletas e às vezes sem total significado. Mas aquilo importa de um tanto porque sei que, meu aluno que foi, continua se esforçando para se fazer comunicável, compreendido e agora conectado. Estar conectado está para além do online. 


Há um esforço ali de gente que teima. E era assim que todo mundo se entendia em casa: na base da teimosia. Meu avô era um excelente jogador de baralho. Meu pai é ótimo em Damas, sempre foi. E lembro que vez ou outra ele aparecia com algum tipo de brinquedo-lógico-montável pra gente desvendar e forçar o raciocínio até a exaustão. Ele dizia que a gente não devia fugir da resposta, que precisava insistir até que o troço fosse por completo revelado. Meu pai já manjava de jornalismo, ó! Ele que completou nenhuma série da grade curricular, mas que continua sendo o cara mais sabedô que conheço. 


Meus pais são as únicas pessoas a quem perdoo revisão gramatical. Quem sabe de mim, entende meus pontos finais e o quanto sou deveras implicante com vírgulas e sujeitos. De interessante no WhatsApp deles é a forma como abrem suas primeiras janelas pro mundo, por meio da tecnologia, e como se encantam com isso. Chega a ser infantil. E, por ser infantil, beira a ingenuidade, a despretensão, o ridículo. “Como assim seus pais nunca mexeram num computador? Não. Minha mãe não sabe onde fica a Itália. Dona Fran teve como biblioteca o descarte de revistas e livros dos vizinhos.

Das várias vezes que tentei ensinar Dona Fran a mexer no WhatsApp, ela teimosa: “Vou aprender isso pra quê, menina?”. Um dia, lhe fitei os olhos e disse com seriedade: “Eu vou embora. Como é que você vai falar comigo?”. E minha mãe demonstra certo pânico da palavra abandono. Talvez pelo obrigatório adeus quando veio para São Paulo e deixou no Piauí a mãe, parideira de 22 outros filhos. A vida lhe exigiu coragem. E segue exigindo em suas minúcias, como a de baixar um aplicativo e aprender a usá-lo.

Meus pais têm WhatsApp e a mensagem mais especial que me enviam não está em vídeo, áudio, imagem ou grupo. Está na resiliência que eles, a partir de suas vivências, foram encontrando respostas e links com a realidade que os acompanharam a vida inteira – e os acompanham até hoje. É a mensagem de zapzap que os livram de certa exclusão - ainda que momentânea – de mundo, de sociedade. É a forma como, sem saber, me deixam perceber e sensibilizar com suas fraquezas e carências – tecnológicas ou não. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

demorei a gostar de meu nome

demorei a gostar de meu nome. demorei porque fui a escolha de meu pai, não a de minha mãe. "bota Joice, Juliana, Janine ou Jéssica". meu pai: João. "botei o nome de minha mãe: Neomisia". minha avó, piauiense, um dia me contou que seu nome foi aposta – literal – de suas avós: uma queria Neomisia, a outra Sinhá. eu seria a ironia do pronome de tratamento, carregando em mim mais um histórico de escravidão. não! o jeito foi aprender a ser Neomisia.

demorei a gostar de meu nome. odiei todos os primeiros dias de aula. odiei ser primeiro o nome errado e não a pessoa certa pra turma. e, por ser calada demais, não conseguia revidar aos risos dos colegas de classe. quando o professor entrava na chacota, aí eu tinha certeza que estava tudo danado.

demorei a gostar de meu nome. demorei porque passei anos calada. fui buscar na palavra o significado de meu nome. aí os movimentos dos neo-alguma-coisa me disseram ser "novo". e de novidade eu sempre gostei. aí descobri ser Grego, descobri ser Pensamento: "de pensamento jovem, novo". 


demorei a gostar de meu nome. fui buscar na palavra quem eu era. sou. estou sendo. passei a escrever. ganhei voz. virei Neomisia Escrevinhadora Silvestre. descobri ser melhor por escrito, que por inteiro.


demorei a gostar de meu nome e de tudo que cabia nele. agora que gosto, salto pelos olhos, cabelos e boca. meu nome não me deixa baixar a cabeça. meu nome não se importa mais quantas vezes precisa ser repepepetido. meu nome sou um EU agora. e nesse agora posso ser quem eu quiser.


nos tempos idos, eu já era Neomisia e nem sabia, como bem me lembrou ser, hoje, neste 20 de maio de 2015, a amiga Kelen, que me percebeu ser ponto em fim de frase; que a percebi ser/estar careca de si. e como me ressignifico todas as vezes que recebo algum comentário de gratidão e fortalecimento neste depoimento dado ao Minorias


demorei a gostar de meu nome, mas penso que se tivesse sido Sinhá, Neomisia daria um jeito de me encontrar em vida.



n e o 

Foi numa tarde ensolarada que conheci Neomisia.
Talvez na melhor circunstância possível: um tipo de soul train feito com jazz funkeado. Um sucesso de audiência e público.

Desde a primeira menção fiquei curiosa, mas entendi claramente: era Neomisia. E para as surpresas que a vida reserva, quase minha vizinha de quebrada.

Dizia que seu nome não cabia num punhado de coisas e eu entendo bem como é disso.

Ser Kelen, mesmo numa condição ortograficamente menos complexa também trazia desgaste. Desgaste que saía dos tempos atuais com vídeos de comédia em que só existo na garrafa pet do Dolly, e voltava aos de escola. "Por que não 'Kelly' como todo mundo?" eu perguntava com raiva para quem escolheu o nome. "Você não é todo mundo!" era a resposta que ele me dava. Aposto que o pai de Neomisia pensava o mesmo.

Neomisia, parece nome de musa, de deusa, amiga de Dionísio que traz Obá pra vida alheia.
Deve ser por isso que sempre inspira com suas cores e evoca a mim verbos no imperativo: vá, corra, ame...
Deve ser por isso que consegue me arrancar das entranhas gargalhadas, mesmo que por meios digitais.
Foi tal poder que completou um pedaço do vazio de um dia de junho, que me vê cabendo dentro de quem não pertenço...

"Espalhe Neomisia por aí!" conversamos um dia. Me parece extremamente necessário.

Entendo a sede e a inquietação da vida, a agonia de não caber dentro do que nos cabe, a ganância do existir por inteiro.

Não é fácil ser grande, não dá pra chegar sem se derramar,  não dá pra ser pouco dentro do outro.
É difícil, mas um dia haverá espaço suficiente para pousar de braços abertos.

Continue, espalhe-se.



Kelen Lima, setembro de 2013.
 




sexta-feira, 15 de maio de 2015

achômetros e bicicletas


A gente passa tanto tempo sem andar de bicicleta, que quando anda o medo do tombo é a única coisa em que se pensa. E, para evitar quedas, é que a gente passa tanto tempo sem andar. Anda a pé, de transporte público, de quatro rodas, avião. A gente passa tanto tempo sem cafuné, que quando ele vem a gente desconfia, esquiva a cabeça de leve, só pros dedos não entrarem tanto nos cabelos. Só pros dedos não roubarem fios. A gente passa um bocado de tempo pra se recuperar do ex e evita o cafuné do outro quando o outro vem. E a gente acha que se esse outro vem é só pra te levar uns fios da cabeça, que já não são mais tantos. O tempo passa e a gente acha que nenhum outro cafuné será como antes, mas também não alivia o colo, não anda de bicicleta. Finge mesmo que esqueceu como se faz. E se o outro insiste e a gente, enfim, aceita aquele cafuné que ele tem pra dar, não deixa a felicidade boba tomar conta. Felicidade boba, como a das bicicletas. Soprar cafuné não pode. Porque soprar cafuné vai remeter ao vento libertador do andar de bicicleta. E a gente acha que o vento libertador de um cafuné soprado, carinhoso, vai te tornar livre. E, livre, você logo se sente preso ao cafuné da vez. A gente acha que não pode deitar no colo, chorar na frente, ser tolinha, ser meiguinha na hora do cafuné. E a gente acha que o cafuné vai durar pra sempre, e não. Acha logo que aquela entrega te fragiliza de um tanto e que não se pode parecer fraco. A gente acha que o dono do cafuné é o mais poderoso do mundo. Mas também acha que cafuné é para os fracos. Acha que entrando pelos cabelos, vão te enxergar nu. E nu não pode. Nu é proibido. E nu, acha que pode morar naquele corpo pra sempre, como se ele fosse teu, e não. Afinal, ninguém anda por aí nu de bicicleta. Acha que pior que vento no rosto, é vento dentro do estômago. Esse que te faz desacreditar de cafunés por livre e espontânea vontade, como a vontade de andar de bicicletas com corpos que você sabe que nunca mais verá de novo. Ou acha que nunca mais verá. E prefere voltar a pé. 


foto: Neomisia Silvestre. Santo Inácio do Piauí, 2013.